sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Mais sofisticados

O mundo é inteligível. Isto é fato inexplicável. 
Desenvolvida a faculdade da inteligência,
seus mistérios só nos parecerão sofisticados. 
Jamais completamente apreendidos
sequer definitivamente explicados. 

domingo, 30 de janeiro de 2022

É um velho, por que não se aposenta?

Por Leo MouraNão é culpa do tempo tanta coisa acumulada. As vezes que fiquei a pensar se o tempo tivesse consciência de si, se se julgasse útil para algum fim e — subitamente protestasse pelo uso indevido...  

Ah, o tempo ia vomitar tudo de volta ao mundo, sobre as nossas cabeças até. E fazer uma bariátrica. Não mais aquele saco sem fundo. 

O tempo tão velho, por que não se aposenta? 

Já pensou se o tempo criasse asa e (liberto dos relógios)   nunca mais fosse visto ao passar das horas? 

Enfim, enfim o tempo não é mesmo um saco sem fundo. E pode ele não se dar conta, mas de fato existe. 

Existe porque a gente existe. E um dia se acaba, como a gente termina. 

E o fim será exatamente, exatamente...


quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Não é uma distância o que nos separa de Deus

Por Leo Moura | Outro dia eu assitia, achando graça, porém com todo respeito a um vídeo do Elon Musk. E resolvi imaginar que não. Não vamos entrar aos Céus em naves espaciais. Pensei também nos astronautas enfiados naqueles escafandros, confinados numa estação orbital, comendo sachês. Será que não sabem que jamais vencerão o espaço? Quando entenderão enfim que, o que nos separa do Céu não é um espaço? 

Vivos em carne e osso e em trajes pressurizados não têm direito de "pisar" no Céu. E se morrerem ali em cima descobrirão, ao prestarem contas a Deus, que tolice! Que tolice! Não há jornada daqui para o Céu que não o curso da própria vida. Olhai para cima e mirai o céu ali naquele azul, mas não é uma altura, não é uma distância o que nos separa de Deus. 

A vida pode ser a estrada para o Céu, o atalho para o purgatório ou um pulo direto para o inferno. Tudo depende do vivente. Enquanto isso, os cosmonautas no mundo da Lua perdidos no vácuo do abismo sideral, lançados do chão firme para para lugar nenhum ainda que encontrem onde pousar. E  nós só olhamos pra cima, para o firmamento azul em pleno dia, ou para o breu salpicado de estrelas à noite. Olha lá! A Terra inteira está no Céu.

sábado, 22 de janeiro de 2022

Velho amigo revolucionário

Por Leo Moura |  Recordei-me hoje de um velho amigo. Vou chamá-lo, aqui, pelo sobrenome, Pereira. Um velho amigo. Um cara incrível. Insuportavelmente original e polêmico. Antissocial muitas vezes. Boêmio, poeta! Todos o respeitavam, mas não era bom conviva, no máximo quando lhe convinha.

Hipnotizante  

Quando precisava de ajuda, visto que era um pobre diabo cheio de filhos, jogava na cara de quem encontrase,  a sua miséria, e conseguia esmolas, empréstimos, cigarros, bebida, comida para a mulher e os meninos, botijão de gás, pagamento de boletos de luz, e outras urgências. Se vivo fosse, com tal hipnotizante convencimento, seria rico e bem sucedido. 

A vanguarda moralista

Pereira era um revolucionário de verdade.  Mas não se encaixaria nesses padrões ideológicos atuais. A vanguarda do pensamento, agora, é moralista. Pedem por censura, vigiam o comportamento alheio e controlam até o que se fala. Que disparate! Desconfio que Pereira daria um bom deputado desses de partido de esquerda. Porém, não sofreu upgrade ambiental, identitário. Escapou.  

É proibido sofrer

É que Pereira era um tipo idealista esperançoso, espirituoso e não arrogante, e  era feliz apesar da miséria em que vivia. Pense aí num revolucionário espartano, caridoso, malandro e pobre.  Hoje em dia ninguém quer viver a beleza do drama, não se pode sofrer, é proibido. Acho que o Pereira não, não seria feliz nos dias atuais e talvez acabasse acusado de  fascista pelos incautos.


sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Cercados de água por todo lado

Por Leo Moura | A água calma do lago se foi agitando com os primeiros sinais do céu de chumbo. Salgada no mar lá adiante e doce acima de nós; fios desenrolam-se lambendo telhados, escorrendo pelas calhas até à grelha de sarjeta da esquina. A chuva, cortejada pelo vento, lavando ruas e praças, avenidas e alamedas, empurrando lixo e folhas mortas. 

Falta luz

O relâmpago a radiografar o céu transpassa o firmamento. O trovão se impõe com frequência cada vez maior e mais grave. O vento soprado dos dutos das correntes desorienta o curso da chuva e sacode a copa das árvores. O gato se abriga quieto. As galinhas acordaram, mas não descem do poleiro. Nesta hora o mundo é todo da tormenta. Silêncio nas casinhas sem luz. A avó pega o rosário e manda a neta desligar o celular. A chama da vela bruxuleia. 


A luz acende


Ouvem-se gritos de euforia, mas a luz se apaga novamente; hoje não tem novela das sete. O céu arrota trovão retumbante. Muitos rogos a Nossa Senhora. E a chuva vai diminuindo, e a chuva volta crescendo; vento sopra forte e desvanesce; trovão ameno e longínquo estrondo. Ruas alagadas. Alguém grita “solta o cachorro, coitado”. Sozinho, arrastando a corrente na trovoada. O papagaio com seu casaco verde e amarelo não pede café. 


Motoqueiro fantasma 


Agora se ouve mais alto o choro das calhas. Antes de a chuva sessar completamente já correm as bicicletas. O bordel reabriu. De farol apagado encosta o primeiro motoqueiro fantasma da noite — que surgiu do nada, em meio à escuridão. Ele tira a capa e pede cerveja. A mulher negra e alta sorri com seus penduricalhos cintilantes à luz da única vela sobre o balcão serve ao cliente. A cidadezinha não para. O obreiro fiel e sua família enfrentaram a tempestade, não perderam hora, e de joelhos na congregação clamam pelas vítimas nas vilas submersas. 


Comboio do exército 


Dezembro de muitas águas como nunca se viu por estas bandas do país. Fecho os olhos e sonho com comboios do exército; se vê presidente, ministros, governador. Nunca se viu tanta autoridade brigando pra salvar desgraçados. De todo lugar, de gente de boa fé, chegam donativos para socorrer os desvalidos do sul. Daqui, da cidadezinha, saiu caminhão com água, comida e roupa velha. 

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Cumulonimbus de chumbo

Por Leo MouraAs ciências meteorológicas nunca alcançaram a glória de evitar uma tragédia. Ou pelo menos não tive notícias disso. Conseguem  prever secas e invernos intensos porque, esses, são eventos ordinários. Já não detectaram os aparelhos sinais de um dezembro copioso porque, aquele, foi extraordinário, dilúvio que desolou dezenas de cidades e afogou tantas vidas. 

E chuva caiu na Bahia

E a chuva não parou por vários dias. Cumulonimbus de chumbo e água desabaram de um céu de raios. Rios e rios a transbordar. Até arroios só antes vistos nos mais antigos mapas ressuscitaram e romperam caudalosos, inéditos para esta geração. Pontes interditadas, estradas arrancadas e encostas destampadas de terra nua, vermelha como carne viva. Casinhas solitárias, mesmo no alto da colina, metades é o que se vê. 

A água arrastou rebanho, plantação, roupa no varal

E o povo fugia navegando em colchão, caixa d’água, bote, canoa; homens, mulheres, velhos e criança pequena. Os mais fortes acudiam. Corre! Pega o remédio, o registro das crianças, o RG do adulto, o cartão da aposentadoria, o comprovante da vacina, a Bíblia, o crucifixo. Outros passaram a noite em cima do telhado esperando na escuridão chuvosa o arrebatamento das águas ou o milagre do resgate. O velho com água no pescoço tenta fechar a porta da casa, lá dentro os móveis boiando. Não tem luz, internet, nem sinal de telefonia.  

Não tem socorro. A chuva é tudo

Meu Deus quantos rogos, quanto clamor, quantos Rosários em mãos engiadas de frio e medo. Meu Deus quantas Arcas de Noé precisaríamos construir que coubessem, de cada família, a vaquinha de leite, dois carneiros, dois porquinhos, as galinhas e o totó? Abram as gaiolas! Abram as gaiolas!! Papa-capim não aguenta mais. Os hospitais lotados, correria de médicos e enfermeiras. A chuva trouxe a reboque viroses e gripes; não se sabe mais o quê nas águas turvas das enchentes. 

Horizonte de desolação 

Os drones no ar, que antes mostravam a beleza das praças, ruas, avenidas, alamedas e agora esse horizonte de desolação. Não há como conter a fúria das águas. Eia vamos contar os mortos e sepultá-los dignamente. Quantificar o estrago e reparar para que não morram mais gente. Cuidar dos feridos e desabrigados, vesti-los e alimentá-los. Distrair as crianças para que não lhes seja tão dura a lembrança desse dezembro de vinte e um. 

A solidariedade e satanás 

A solidariedade move o país. A toda hora chegam donativos nas cidadezinhas submersas. Mas, neste mundo jaz o maligno. Os apóstolos de satanás, esses desgraçados de sofá, e de abdome globoso, que falsificam anúncios para roubar doações completam a perfeição de nossa miséria mais humana. Misericórdia, Senhor! Misericórdia. 

sábado, 11 de dezembro de 2021

O que é justiça?

 Por Leo Moura |  A questão é bem profunda. A ciência forense não me parece uma verdadeira justiça. É, talvez, mera tentativa, bem humana, de se fazer justiça. Por isso incapaz de se conduzir sozinha, mesmo guiada por seus melhores doutores; porque não passa de um conjunto de normas, tem situações tão sensíveis, que é preciso entregar o exercício para seus maiores responsáveis, a sociedade. Condenar ou inocentar os réus do incêndio da Boate Kiss, por exemplo, está para além do alcanse de juízes. A sociedade deve decidir. Aí entra o júri popular. É ferramenta de justiça do povo. 250 mortos. Quem errou; quem dormiu tranquilo; quem não vigiou; quem prevaricou?

Quando a justiça não pode errar

Os jurados condenaram os réus, o juiz leu a sentença, batido o martelo e em seguida o habeas corpus em favor dos condenados. Quando contece esse tipo de coisa, tenho a impressão de que fazer justiça  é um puxa-estica. Podiam até discordar. Mas o júri popular é maior, creio que soberano. Ainda que influenciados por boa ou má condução de juízes e advogados acabassem decidindo por um veredicto nada justo. Quando a justiça não pode errar, a sociedade deve assumir o risco, se orgulhar do acerto ou chorar pelo erro. Depois de enxugadas lágrimas, convocar seus legisladores para os devidos ajustes. Os juízes apenas cumprem o doloroso dever de aplicar a lei. Há casos emblemáticos na história. Evoco aqui o mais chocante deles.

O julgamento de Jesus Cristo

Pilatos tinha outra opinião ou, quem sabe, nenhuma. Aquele modelo antigo de júri popular condenou Jesus. Não houve apelação. Mas o caso aqui é brasileiro, onde sabemos que juízes viraram celebridades e a mídia espetaculariza tudo. Tenho preocupação em crer que os governantes não mandam nos juízes; e o povo, como os incrédulos hebreus condenam ou inocentam em CAPS LOOCK, nas redes sociais. Já os togados, no afã por justiça perfeita, tecnicamente impecável como se possível fosse, nos puzeram de platéia; assistimos a verdadeiras batalhas de instâncias. Uma versão mundana da TITANOMAQUIA. Só tem que os deuses ignoravam os mortais.

Não gerreavam para serem os donos da razão 

Os deuses guerreavam, creio que, pelo domínio de reinos celestiais  vassalos, povoados de criaturas mitológicas inúteis, e pelos salões cinzentos do palácio do Olimpo. Pilatos não. Tivera função muito mais digna, e de fundamental importância que as dos deuses gregos. O governador da Galiléia romana, presidiu o tribunal mais importante da história do mundo. E o réu, um inocente em trágico sacrifício. Pilatos, diante das gentes, talvez perplexo ou indiferente, julgou-se incapaz. Será que, num lapso de entendimento futuro, muito afeito a bons ou maus romanos, bem humano, viu que que o poder e a justiça mundana emanam do povo, e lavou as mãos?

Quem viver verá!

Pois, quem viver, verá que todos nós prestaremos conta de nossos atos mais humanos, do dedo em riste ao inocente, do fel compartilhado e dos crimes inconfessáveis. Dos atos individuais, dos resultados de nossos advogados e juizes nos tribunais. Eis que ainda, Deus, pacientemente nos vê tentando.