sábado, 22 de janeiro de 2022

Velho amigo revolucionário

Por Leo Moura |  Recordei-me hoje de um velho amigo. Vou chamá-lo, aqui, pelo sobrenome, Pereira. Um velho amigo. Um cara incrível. Insuportavelmente original e polêmico. Antissocial muitas vezes. Boêmio, poeta! Todos o respeitavam, mas não era bom conviva, no máximo quando lhe convinha.

Hipnotizante  

Quando precisava de ajuda, visto que era um pobre diabo cheio de filhos, jogava na cara de quem encontrase,  a sua miséria, e conseguia esmolas, empréstimos, cigarros, bebida, comida para a mulher e os meninos, botijão de gás, pagamento de boletos de luz, e outras urgências. Se vivo fosse, com tal hipnotizante convencimento, seria rico e bem sucedido. 

A vanguarda moralista

Pereira era um revolucionário de verdade.  Mas não se encaixaria nesses padrões ideológicos atuais. A vanguarda do pensamento, agora, é moralista. Pedem por censura, vigiam o comportamento alheio e controlam até o que se fala. Que disparate! Desconfio que Pereira daria um bom deputado desses de partido de esquerda. Porém, não sofreu upgrade ambiental, identitário. Escapou.  

É proibido sofrer

É que Pereira era um tipo idealista esperançoso, espirituoso e não arrogante, e  era feliz apesar da miséria em que vivia. Pense aí num revolucionário espartano, caridoso, malandro e pobre.  Hoje em dia ninguém quer viver a beleza do drama, não se pode sofrer, é proibido. Acho que o Pereira não, não seria feliz nos dias atuais e talvez acabasse acusado de  fascista pelos incautos.


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