Por Leo Moura | A água calma do lago se foi agitando com os primeiros sinais do céu de chumbo. Salgada no mar lá adiante e doce acima de nós; fios desenrolam-se lambendo telhados, escorrendo pelas calhas até à grelha de sarjeta da esquina. A chuva, cortejada pelo vento, lavando ruas e praças, avenidas e alamedas, empurrando lixo e folhas mortas.
Falta luz
O relâmpago a radiografar o céu transpassa o firmamento. O trovão se impõe com frequência cada vez maior e mais grave. O vento soprado dos dutos das correntes desorienta o curso da chuva e sacode a copa das árvores. O gato se abriga quieto. As galinhas acordaram, mas não descem do poleiro. Nesta hora o mundo é todo da tormenta. Silêncio nas casinhas sem luz. A avó pega o rosário e manda a neta desligar o celular. A chama da vela bruxuleia.
A luz acende
Ouvem-se gritos de euforia, mas a luz se apaga novamente; hoje não tem novela das sete. O céu arrota trovão retumbante. Muitos rogos a Nossa Senhora. E a chuva vai diminuindo, e a chuva volta crescendo; vento sopra forte e desvanesce; trovão ameno e longínquo estrondo. Ruas alagadas. Alguém grita “solta o cachorro, coitado”. Sozinho, arrastando a corrente na trovoada. O papagaio com seu casaco verde e amarelo não pede café.
Motoqueiro fantasma
Agora se ouve mais alto o choro das calhas. Antes de a chuva sessar completamente já correm as bicicletas. O bordel reabriu. De farol apagado encosta o primeiro motoqueiro fantasma da noite — que surgiu do nada, em meio à escuridão. Ele tira a capa e pede cerveja. A mulher negra e alta sorri com seus penduricalhos cintilantes à luz da única vela sobre o balcão serve ao cliente. A cidadezinha não para. O obreiro fiel e sua família enfrentaram a tempestade, não perderam hora, e de joelhos na congregação clamam pelas vítimas nas vilas submersas.
Comboio do exército
Dezembro de muitas águas como nunca se viu por estas bandas do país. Fecho os olhos e sonho com comboios do exército; se vê presidente, ministros, governador. Nunca se viu tanta autoridade brigando pra salvar desgraçados. De todo lugar, de gente de boa fé, chegam donativos para socorrer os desvalidos do sul. Daqui, da cidadezinha, saiu caminhão com água, comida e roupa velha.
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