Por Leo Moura | As ciências meteorológicas nunca alcançaram a glória de evitar uma tragédia. Ou pelo menos não tive notícias disso. Conseguem prever secas e invernos intensos porque, esses, são eventos ordinários. Já não detectaram os aparelhos sinais de um dezembro copioso porque, aquele, foi extraordinário, dilúvio que desolou dezenas de cidades e afogou tantas vidas.
E chuva caiu na Bahia
E a chuva não parou por vários dias. Cumulonimbus de chumbo e água desabaram de um céu de raios. Rios e rios a transbordar. Até arroios só antes vistos nos mais antigos mapas ressuscitaram e romperam caudalosos, inéditos para esta geração. Pontes interditadas, estradas arrancadas e encostas destampadas de terra nua, vermelha como carne viva. Casinhas solitárias, mesmo no alto da colina, metades é o que se vê.
A água arrastou rebanho, plantação, roupa no varal
E o povo fugia navegando em colchão, caixa d’água, bote, canoa; homens, mulheres, velhos e criança pequena. Os mais fortes acudiam. Corre! Pega o remédio, o registro das crianças, o RG do adulto, o cartão da aposentadoria, o comprovante da vacina, a Bíblia, o crucifixo. Outros passaram a noite em cima do telhado esperando na escuridão chuvosa o arrebatamento das águas ou o milagre do resgate. O velho com água no pescoço tenta fechar a porta da casa, lá dentro os móveis boiando. Não tem luz, internet, nem sinal de telefonia.
Não tem socorro. A chuva é tudo
Meu Deus quantos rogos, quanto clamor, quantos Rosários em mãos engiadas de frio e medo. Meu Deus quantas Arcas de Noé precisaríamos construir que coubessem, de cada família, a vaquinha de leite, dois carneiros, dois porquinhos, as galinhas e o totó? Abram as gaiolas! Abram as gaiolas!! Papa-capim não aguenta mais. Os hospitais lotados, correria de médicos e enfermeiras. A chuva trouxe a reboque viroses e gripes; não se sabe mais o quê nas águas turvas das enchentes.
Horizonte de desolação
Os drones no ar, que antes mostravam a beleza das praças, ruas, avenidas, alamedas e agora esse horizonte de desolação. Não há como conter a fúria das águas. Eia vamos contar os mortos e sepultá-los dignamente. Quantificar o estrago e reparar para que não morram mais gente. Cuidar dos feridos e desabrigados, vesti-los e alimentá-los. Distrair as crianças para que não lhes seja tão dura a lembrança desse dezembro de vinte e um.
A solidariedade e satanás
A solidariedade move o país. A toda hora chegam donativos nas cidadezinhas submersas. Mas, neste mundo jaz o maligno. Os apóstolos de satanás, esses desgraçados de sofá, e de abdome globoso, que falsificam anúncios para roubar doações completam a perfeição de nossa miséria mais humana. Misericórdia, Senhor! Misericórdia.