segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Cumulonimbus de chumbo

Por Leo MouraAs ciências meteorológicas nunca alcançaram a glória de evitar uma tragédia. Ou pelo menos não tive notícias disso. Conseguem  prever secas e invernos intensos porque, esses, são eventos ordinários. Já não detectaram os aparelhos sinais de um dezembro copioso porque, aquele, foi extraordinário, dilúvio que desolou dezenas de cidades e afogou tantas vidas. 

E chuva caiu na Bahia

E a chuva não parou por vários dias. Cumulonimbus de chumbo e água desabaram de um céu de raios. Rios e rios a transbordar. Até arroios só antes vistos nos mais antigos mapas ressuscitaram e romperam caudalosos, inéditos para esta geração. Pontes interditadas, estradas arrancadas e encostas destampadas de terra nua, vermelha como carne viva. Casinhas solitárias, mesmo no alto da colina, metades é o que se vê. 

A água arrastou rebanho, plantação, roupa no varal

E o povo fugia navegando em colchão, caixa d’água, bote, canoa; homens, mulheres, velhos e criança pequena. Os mais fortes acudiam. Corre! Pega o remédio, o registro das crianças, o RG do adulto, o cartão da aposentadoria, o comprovante da vacina, a Bíblia, o crucifixo. Outros passaram a noite em cima do telhado esperando na escuridão chuvosa o arrebatamento das águas ou o milagre do resgate. O velho com água no pescoço tenta fechar a porta da casa, lá dentro os móveis boiando. Não tem luz, internet, nem sinal de telefonia.  

Não tem socorro. A chuva é tudo

Meu Deus quantos rogos, quanto clamor, quantos Rosários em mãos engiadas de frio e medo. Meu Deus quantas Arcas de Noé precisaríamos construir que coubessem, de cada família, a vaquinha de leite, dois carneiros, dois porquinhos, as galinhas e o totó? Abram as gaiolas! Abram as gaiolas!! Papa-capim não aguenta mais. Os hospitais lotados, correria de médicos e enfermeiras. A chuva trouxe a reboque viroses e gripes; não se sabe mais o quê nas águas turvas das enchentes. 

Horizonte de desolação 

Os drones no ar, que antes mostravam a beleza das praças, ruas, avenidas, alamedas e agora esse horizonte de desolação. Não há como conter a fúria das águas. Eia vamos contar os mortos e sepultá-los dignamente. Quantificar o estrago e reparar para que não morram mais gente. Cuidar dos feridos e desabrigados, vesti-los e alimentá-los. Distrair as crianças para que não lhes seja tão dura a lembrança desse dezembro de vinte e um. 

A solidariedade e satanás 

A solidariedade move o país. A toda hora chegam donativos nas cidadezinhas submersas. Mas, neste mundo jaz o maligno. Os apóstolos de satanás, esses desgraçados de sofá, e de abdome globoso, que falsificam anúncios para roubar doações completam a perfeição de nossa miséria mais humana. Misericórdia, Senhor! Misericórdia. 

sábado, 11 de dezembro de 2021

O que é justiça?

 Por Leo Moura |  A questão é bem profunda. A ciência forense não me parece uma verdadeira justiça. É, talvez, mera tentativa, bem humana, de se fazer justiça. Por isso incapaz de se conduzir sozinha, mesmo guiada por seus melhores doutores; porque não passa de um conjunto de normas, tem situações tão sensíveis, que é preciso entregar o exercício para seus maiores responsáveis, a sociedade. Condenar ou inocentar os réus do incêndio da Boate Kiss, por exemplo, está para além do alcanse de juízes. A sociedade deve decidir. Aí entra o júri popular. É ferramenta de justiça do povo. 250 mortos. Quem errou; quem dormiu tranquilo; quem não vigiou; quem prevaricou?

Quando a justiça não pode errar

Os jurados condenaram os réus, o juiz leu a sentença, batido o martelo e em seguida o habeas corpus em favor dos condenados. Quando contece esse tipo de coisa, tenho a impressão de que fazer justiça  é um puxa-estica. Podiam até discordar. Mas o júri popular é maior, creio que soberano. Ainda que influenciados por boa ou má condução de juízes e advogados acabassem decidindo por um veredicto nada justo. Quando a justiça não pode errar, a sociedade deve assumir o risco, se orgulhar do acerto ou chorar pelo erro. Depois de enxugadas lágrimas, convocar seus legisladores para os devidos ajustes. Os juízes apenas cumprem o doloroso dever de aplicar a lei. Há casos emblemáticos na história. Evoco aqui o mais chocante deles.

O julgamento de Jesus Cristo

Pilatos tinha outra opinião ou, quem sabe, nenhuma. Aquele modelo antigo de júri popular condenou Jesus. Não houve apelação. Mas o caso aqui é brasileiro, onde sabemos que juízes viraram celebridades e a mídia espetaculariza tudo. Tenho preocupação em crer que os governantes não mandam nos juízes; e o povo, como os incrédulos hebreus condenam ou inocentam em CAPS LOOCK, nas redes sociais. Já os togados, no afã por justiça perfeita, tecnicamente impecável como se possível fosse, nos puzeram de platéia; assistimos a verdadeiras batalhas de instâncias. Uma versão mundana da TITANOMAQUIA. Só tem que os deuses ignoravam os mortais.

Não gerreavam para serem os donos da razão 

Os deuses guerreavam, creio que, pelo domínio de reinos celestiais  vassalos, povoados de criaturas mitológicas inúteis, e pelos salões cinzentos do palácio do Olimpo. Pilatos não. Tivera função muito mais digna, e de fundamental importância que as dos deuses gregos. O governador da Galiléia romana, presidiu o tribunal mais importante da história do mundo. E o réu, um inocente em trágico sacrifício. Pilatos, diante das gentes, talvez perplexo ou indiferente, julgou-se incapaz. Será que, num lapso de entendimento futuro, muito afeito a bons ou maus romanos, bem humano, viu que que o poder e a justiça mundana emanam do povo, e lavou as mãos?

Quem viver verá!

Pois, quem viver, verá que todos nós prestaremos conta de nossos atos mais humanos, do dedo em riste ao inocente, do fel compartilhado e dos crimes inconfessáveis. Dos atos individuais, dos resultados de nossos advogados e juizes nos tribunais. Eis que ainda, Deus, pacientemente nos vê tentando.


domingo, 14 de novembro de 2021

Deusa da ilusão

 Por Leo Moura | Não há prova para o que a ficção científica ou propriamente a ciência chamam de “outra dimensão” ou “universo paralelo”. O próprio enunciado “outra dimensão” é absolutamente vazio no conceito, tá mais pra irrefreável desejo de que passe a existir algo que não existe. Porém, grandiosos projetos científicos conseguem levantar muito dinheiro para financiar pesquisas no campo. Querem encontrar provas do que não há evidência, muito menos teoria sequer convincente. Então, como os antigos navegadores, pretendem provar encontrando. 


Quando se lê um artigo científico qualquer, dessas revistas aí,  principalmente de ciência contemporânea, encontra-se  argumentos que mais parecem recriações oníricas e/ou dantescas (isso é um elogio) se encararmos do ponto de vista literário. Só um aviso, a leitora não encontrará requinte estético como nas obras clássicas. 

Sinais — não vistos no céu ou na terra


A ciência tem se tornado uma indústria de literatura fantástica, um mercado promissor para pessoas talentosas e de mente fértil. Com narrativas incrivelmente arrancadas das interprtações de sinais — não vistos no céu ou na terra, mas da leitura de dados; sondas espaciais, supertelescópios e colisores de hádrons produzem dados, e os gênios os leem como bruxos, como os antigos sacerdotes animistas que enxergavam profecias em qualquer lugar, fumaça, vísceras ou em bolas de cristal. 


Grandes centros de pesquisa, universidades e corporações conseguem mobilizar recursos vultuosos para alimentar uma verdadeira industria de fantasias, que começa com tese, vai ao laboratório e reúne, depois, habilidosos redatores, desenhistas e criadores de animação para, por exemplo, validar a ideia de que uma macha que passa na frente de uma estrela é um planeta com potencial para abrigar vida humana.

Moradas dos deuses, o inferno, o purgtório, o paraíso


A diferença é que os antigos falavam por parábolas, ou tomados por suposta possessão; os crentes ouviam deles mensagens do além. Agora, coisas para além da nossa compreensão a ciência recria em gráficos e reproduções artísticas que parecem reais. Penso que “outra dimensão” é só um jeito alternativo de dizer que procuram o mundo espiritual, as moradas dos deuses, o inferno, o purgtório, o paraíso de Dante ou o mundo dos mortos dos antigos egípcios. 


Outro fenômeno não menos engraçado é que, se hoje em dia, qualquer um debochar de uma religião é apontado como inteligente. Porém se o deboche for à deusa ciência o bicho pega. É uma blasfêmia e causa semelhante horror como a uma pessoa de fé diante de palavras verdadeiramente diabólicas. 


Frente a este quadro, a única coisa que me vem à mente é que a maioria das pessoas têm um imenso potencial para uma vida de fé. Porque são movidas pela imaginação, da mesma forma que aquelas que lotaram uma colina para ver Jesus Cristo. E saíram de lá acreditando em cada palavra que ouviram.


Intacto há mais de dois mil anos


Vale lembrar que, mesmo arrastando multidão, era multidão de cidadezinha. Jesus falou para poucos,  e o que ele disse está, na essência, intacto há mais de dois mil anos. Um artigo científico vira filme, série da Netflix, atinge milhões, bilhões de pessoas na instantaneidade da internet, e com superprodução milionária. Mas não sabemos se  terá valor no próximo verão. 


Longe das igrejas, afastadas das doutrinas e do exercício moral, as pessoas continuam sendo as pessoas, como no tempo dos profetas, porém, o potencial de fé a que me refiro tem sido muito bem aproveitado pelas indústrias da  música, cinema, também na política e mídias sociais. A ciência é só a nova deusa de todas essas seitas. Em contraponto à fé em Deus, muitas gente tem fé em qualquer coisa que digam em nome da ciência. 

Outros mundos, dimensões e universos paralelos


Como cantou Renato Russo, “o futuro não é mais como era antigamente”.  Não está mais no desejo do povo de um país vencer uma guerra, não mais na ascensão de nações; boas e más colheitas; nem mesmo a chegada de messias ou heróis como São Sebastião num cavalo branco. Não é mais a volta de Nosso Senhor. O futuro está em outros mundos, dimensões e universos paralelos como em Cavernas de Dragão a descobrir; tomara que descubram também, com os recursos disponíveis, um jeito de voltar.